Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Uma flor

Não sei se é nova ilusão.
Antes, por entre a sombra do meu próprio corpo,
encaixava-se a decepção,
de tudo que não foi, mas poderia ter sido.
A sombra me perseguia por todos os cantos.
Fizesse chuva, fizesse sol.
E a dor, que se aglutinava também no sangue,
sempre que eu esquecia, ao olhar para trás,
me fazia lembrar que dor e amor andam juntos.
Desacreditei ser possível embarcar em nova viagem de volta incerta.
E tomei como verdade que a melhor opção era me fechar.
Mesmo que na minha superfície transbordasse outra coisa
a ansidade de perder o chão, mais uma vez.
Os românticos incorrigíveis me entenderiam.
Sair como um furtivo amante, que se delicia com um beijo
como se o momento ficasse suspenso no ar,
e a vida só continuasse depois...
Nada como um primeiro beijo.
Nada como se apaixonar, mesmo que o erro seja um risco,
mesmo que abrir a gaveta e guardar as velhas fotografias
seja difícil, mesmo que algumas vezes a gaveta emperre.
Se amor não se aprende, melhor deixar o destino pregar suas peças
e se arriscar.
Deixei uma flor na sua janela, que talvez o vento despetale,
Ou quem sabe você a encontre antes disso...

Sábado, Novembro 14, 2009

Anotando a vida II

Se de manhã faz sol, e eu me levanto sorrindo,
que bom começo para o dia.
Dentro do que foi mansadião, onde ecoou o meu grito no vazio,
se faz nova morada de algo diferente.
Os inquilinos são perturbados e me perturbam.
Invisíveis a olhos nus, mas trazem a sensação inconfundível.
Nunca se sabe o que está além de um salto mortal,
mas se o pulo não fosse necessário,
como saber o que te encontra do outro lado?
E o que te espera pode ser mais do que se espera.
E quando eu escrevo muito mais do que posso dizer,
a válvula de escape, completamente invonluntária,
fica restrita aos meus cadernos de anotar a vida,
eles sim, poderiam contar todos os meus segredos,
abertamente, despidos, desprotegidos...
E por todas as horas com você serem belas,
mais do que suficiente para me fazer escrever.

Domingo, Novembro 08, 2009

Anotando a vida

Ando num momento de desinspiração, acontece.
Mas para não passar em branco,
quantas possibilidades estão em um leve encostar de braços?
Pele que se esquenta na pele alheia.
quantos sinais são interpretados corretamente?
E se, não há certezas, e sim, dúvidas que insistem em fantasiar...
Como deixar as invencionices e se arriscar?
Um tiro no escuro, pode ser fatal.
Nos olhos que mora a beleza,
A verdade fica, estrategicamente, escondida.
E por enquanto apenas espero.
Te vejo por fora, tentando decifrar o enigma.
Você é o mistério que vou conhecendo aos poucos...

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

A caixa de



Teus olhos de mansinho se viram nos meus. Que surpresa encontro, assim que rasgar os papéis rotos do embrulho, arranjado às pressas? Para além deles vou devagarinho ver o que está por dentro da caixa. O que esconde o cubo de papelão. Descobrir se o presente ocultado revela algo mais, mais do que o objeto apenas. Inesperado ou não. Vazia ou cheia, a embalagem já está nas mãos. Sujeita à última fita adesiva que a mantém fechada. Sujeita ao último instante em que as pontas dos dedos se debatem contra a tampa, prestes a expor a verdade. O ritmo dos dedos marcando a dúvida. Todo o resto na espera. De manhã o tempo era nublado. Existe uma fresta no embrulho, mas a curiosidade vacila, e a caixa fica embaixo da mesa. Guardada. De tarde o sol apareceu.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

De fora pra dentro e vice-versa

Debruço-me dentro de mim,
Deparo-me com o medo do vazio.
A vista curiosa escorrega.
E nesse caso a queda é livre.
Meu corpo cai dentro do meu próprio corpo,
O vazio é ao que me agarro. Onde procuro.
Se há coragem fecho os olhos e caio no escuro.
O corpo é leve, a alma pesada
Nas paredes grossas só há músculos tensos
Enrijecidos com o tempo, desacreditados
O sangue ainda corre, mas se o que sobrou foi muito pouco
Ou quase nada? Ainda procuro no final?
Mesmo que escuro? Escuro, uro, uro, uro...
Ecoa, voa, ricocheteando palavra em célula.
Do meu eu hoje entrando em colisão com todos meus eus que já pensei ter sido.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

No Tom

Esqueci o teu nome entre as embaralhadas frases que desperdicei no caderno. Entre os escritos desesperados, onde, lugar este - usei para negar que te amava. Malfadados dizeres que buscavam me convencer que amor era outra coisa. E que escrever resolveria os tais problemas inexistentes. Porque eu não te amava. Assim como também não sonhava, não queria e não lembrava. Você bem sabe das brigas que nunca tivemos e das discussões que terminavam em beijos. Naquelas noites em que eu não dormi com você. Sem falar nas confidências que muito menos trocamos. E se tivéssemos jurado alguma coisa já seria demais. Eu não sei quando foi que nos conhecemos e jamais lembraria do jeito que me olhou da primeira vez. Até poderia pensar que sua voz ainda me soa familiar, mas não, nem isso. Pois nunca houve cinema e nem dias de chuva. Quem sabe se eu fizesse um samba e desmentisse um pouco, existisse solução. Mas como já era de se imaginar, não havia música. Eu me enganei, tantas vezes, e não pense o contrário, pois não era para você que eu telefonava. Muito menos foi por você que eu chorei. Nunca soube o seu nome. E bobagem dizer que não te quis tão sinceramente ao meu lado, pois foi você que me ensinou todas essas mentiras. Para falar a verdade eu nunca escrevi sobre você.

Domingo, Setembro 20, 2009

Palavras absolutamente esquecíveis

Cala. Se me falta o amor por um instante, cala. E a fina camada que a garoa translúcida deixou na calçada... Cala. Escuta o farfalhar constante das árvores que formam um corredor e no meio a rua. No asfalto os carros passam. A pálpebra de leve treme e aperta os olhos. Fala. Com qual doçura a vida te brindou enquanto a noite esfriava? Que casaco escolheu no fundo do armário para se vestir de você mais um pouco? Que acaso devo esperar para qualquer encontro ao dobrar a esquina? Fala. Bobagens que podem significar nada. Nada. Apenas isso. Não mais que o vazio de palavras absolutamente esquecíveis em minutos. Enquanto fala, tento desnudar a cortina e alcançar-te do outro lado. Para entender se o que realmente fala é o que sente. E se o que sente é capaz de te fazer atravessar a rua e me parar, enquanto caminho desenfreada, na calçada ao lado. E nesse caso, para abrandar a mente, quando muito meus pensamentos se perderem alheios à fala, entre a linha da razão e da loucura vejo o óbvio. Não falta, não cala. A chuva volta. Os meandros do pequeno rio que desliza no canto do asfalto. A noite persiste, o corpo pede, os lábios falam, na mente as palavras confundem, a pálpebra de leve treme antes de apertar os olhos. Cala. Escuta o farfalhar das folhas enquanto o vento passa. Elas debocham do segredo, fazem pouco do beijo. Noite adentro, tempo afora. Preciso tomar fôlego antes de retomar o caminho, por isso paro. Amanhã ainda não é nada. Hoje escrevo, mesmo que as palavras me faltem, para buscá-lo, dar voz ao que me resta, mas se resta alguma coisa, ainda não falta.