Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Reminiscências

No escuro, ouviram-se vozes sussuradas:
-Você tem medo de escuro?
-Não... Você tem?
Como os pensamentos não falavam, os dois se calaram brevemente.
-Um pouco...
Nessa época, eles tinham não mais que oito anos.
-Sabe o que espanta o medo?
-O que?
Ele procurou a mão dela por entre as cobertas empilhadas. O cheiro ali dentro misturava um tanto de môfo, com cheiro de velharia há muito guardada. Muitos anos mais tarde, ele lembraria desse dia, ao abrir um antigo guarda-roupa, mas não se daria conta de que o motivo, que foi resgatar tal lembrança, era justamente o estranho cheiro familiar. Sentindo os finos dedos dela, gelados, os envolveu bem entre os seus, igualmente frios. A verdade era que os dois sentiam medo. E deixaram-se ficar assim de mãos dadas, por alguns longos minutos, em silêncio. Só os pensamentos murmuraram, mas o som se confundiu com a respiração dos dois. Ela não saberia explicar, mas naquele momento, o medo se foi. E não tornou a aparecer. A única certeza que tinha era a de que poderia continuar perdida por entre as cobertas empoeiradas, sua mão perdida na dele, por muito tempo ainda.
-Você já quis saber como é beijar?
Ele perguntou, depois de se encher de coragem. Ela nunca havia pensado sobre isso. Mas ao refletir a respeito, bem que tinha curiosidade no assunto.
-Acho que sim.
Ele se virou para ela, sem saber para onde olhar, pois só enxergava um vulto no breu.
-A gente podia tentar e ver como é.
Ela sorriu matreira, sabendo que ele não poderia vê-la.
-Pode ser.
E tateando um o rosto do outro, eles se beijaram sem saber ao certo como agir, no escuro, enquanto se escondiam dentro do armário. Um pouco depois, outra criança abriu as portas e acabou com a brincadeira. Não voltaram a conversar sobre isso. Pouco se viram nos anos que seguiram. Porém, jamais se esqueceram do instante em que seus lábios se encontraram, em meio a confusão dos corpos, das cobertas, das descobertas, dos travesseiros, dos gostos, das bocas, do cheiro, da infância, da inocência, do escuro...
A recordação caiu no fundo do armário, quando os dois deixaram o esconderijo, e depois foi incorporada a toda a velharia, guardada há muito mais tempo agora.

Domingo, Novembro 29, 2009

Para Roberta

Se o corpo é pesado,
Se a alma chora,
Se a vida grita,
Quem somos nós,
para julgarmos a necessidade
da partida?
Que a leveza te carregue
nos braços,
Enquanto te embalamos
em derradeiro coro
de despedida.
O vermelho do teu cabelo,
que tantas vezes,
pintou nossos olhos,
ficará sempre guardado,
como lembrança que não morre
e traz um sorriso.
Vá em paz e ilumine, lá do alto,
quem por aqui ainda fica.

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

O que seria do amarelo?

Se todos gostassem do azul,
o amarelo seria apenas,
mais uma cor,
desnomeada,
quase um anônimo,
subjulgado,
carente,
esquecido,
prestes a misturar-se no azul
e tornar-se verde.

Camuflagem:
"A esperança é um urubu pintado de verde" Mario Quintana

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

Uma flor

Não sei se é nova ilusão.
Antes, por entre a sombra do meu próprio corpo,
encaixava-se a decepção,
de tudo que não foi, mas poderia ter sido.
A sombra me perseguia por todos os cantos.
Fizesse chuva, fizesse sol.
E a dor, que se aglutinava também no sangue,
sempre que eu esquecia, ao olhar para trás,
me fazia lembrar que dor e amor andam juntos.
Desacreditei ser possível embarcar em nova viagem de volta incerta.
E tomei como verdade que a melhor opção era me fechar.
Mesmo que na minha superfície transbordasse outra coisa
a ansidade de perder o chão, mais uma vez.
Os românticos incorrigíveis me entenderiam.
Sair como um furtivo amante, que se delicia com um beijo
como se o momento ficasse suspenso no ar,
e a vida só continuasse depois...
Nada como um primeiro beijo.
Nada como se apaixonar, mesmo que o erro seja um risco,
mesmo que abrir a gaveta e guardar as velhas fotografias
seja difícil, mesmo que algumas vezes a gaveta emperre.
Se amor não se aprende, melhor deixar o destino pregar suas peças
e se arriscar.
Deixei uma flor na sua janela, que talvez o vento despetale,
Ou quem sabe você a encontre antes disso...

Sábado, Novembro 14, 2009

Anotando a vida II

Se de manhã faz sol, e eu me levanto sorrindo,
que bom começo para o dia.
Dentro do que foi mansadião, onde ecoou o meu grito no vazio,
se faz nova morada de algo diferente.
Os inquilinos são perturbados e me perturbam.
Invisíveis a olhos nus, mas trazem a sensação inconfundível.
Nunca se sabe o que está além de um salto mortal,
mas se o pulo não fosse necessário,
como saber o que te encontra do outro lado?
E o que te espera pode ser mais do que se espera.
E quando eu escrevo muito mais do que posso dizer,
a válvula de escape, completamente invonluntária,
fica restrita aos meus cadernos de anotar a vida,
eles sim, poderiam contar todos os meus segredos,
abertamente, despidos, desprotegidos...
E por todas as horas com você serem belas,
mais do que suficiente para me fazer escrever.

Domingo, Novembro 08, 2009

Anotando a vida

Ando num momento de desinspiração, acontece.
Mas para não passar em branco,
quantas possibilidades estão em um leve encostar de braços?
Pele que se esquenta na pele alheia.
quantos sinais são interpretados corretamente?
E se, não há certezas, e sim, dúvidas que insistem em fantasiar...
Como deixar as invencionices e se arriscar?
Um tiro no escuro, pode ser fatal.
Nos olhos que mora a beleza,
A verdade fica, estrategicamente, escondida.
E por enquanto apenas espero.
Te vejo por fora, tentando decifrar o enigma.
Você é o mistério que vou conhecendo aos poucos...

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

A caixa de



Teus olhos de mansinho se viram nos meus. Que surpresa encontro, assim que rasgar os papéis rotos do embrulho, arranjado às pressas? Para além deles vou devagarinho ver o que está por dentro da caixa. O que esconde o cubo de papelão. Descobrir se o presente ocultado revela algo mais, mais do que o objeto apenas. Inesperado ou não. Vazia ou cheia, a embalagem já está nas mãos. Sujeita à última fita adesiva que a mantém fechada. Sujeita ao último instante em que as pontas dos dedos se debatem contra a tampa, prestes a expor a verdade. O ritmo dos dedos marcando a dúvida. Todo o resto na espera. De manhã o tempo era nublado. Existe uma fresta no embrulho, mas a curiosidade vacila, e a caixa fica embaixo da mesa. Guardada. De tarde o sol apareceu.